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  Por Theodora Brun
 
 
Ainda me surpreendo com seus casarões, antes sinônimos de velharia e abandono, sendo ocupados aos poucos por centros culturais, casas de show e restaurantes. Com os boêmios que se renovam e se reencontram, os que chegam e os que partem...não sem antes revisitar a Nova Lapa. Sem falar no artista plástico Selaron (“multi-cultural”) que inspirou filme, recebeu homenagem e até foi convidado do Jô!!!!
 
 
Escadão do Selaron – Lapa – Rio de Janeiro/Brasil   aparece em propagandas na TV em mais de 170 países.
 
Se não fosse isso, sua escadaria solitariamente colorida, aconchego dos viciados de todas as tribos e passagem para muitos pés de marginais, poetas, músicos e cidadãos comuns como eu, estaria relegada ao ostracismo nacional e apenas admirada por turistas eventuais.
A Nova Lapa...nova nos sobrados ressuscitados e nos shows que num bom e velho linguajar lapiano, "repipocam" em cada esquina.
Nova Lapa...de casas lavadas e de porões iluminados...de afluxo de gentes nobres e ricas, que um tanto enfadadas de seus dias e noites fartos, buscam abrigo na simplicidade e no calor humano que transuda desse chão, desses arcos, desses telhados, testemunhos de muitas luas.
 
Lapa ontem...
 
e hoje!
 
A Nova Lapa está assim, como uma bela lua cheia que esparrama claridade e que do alto dos caminhos de ferro, olha debruçada para nós.
Só os homens e meninos são os mesmos. Só a sujeira, os restos e o lixo são os mesmos. Só a sarjeta, as prostitutas e os "travecos" são os mesmos, junto com os bêbados e os drogados.
Só a injusta muralha social e o mísero papel moeda continuam os mesmos: muros intransponíveis que separam corpos e almas sedentos, ávidos de nem se sabe o que, pois comida não é, bebida não é.
Penso que o que se busca em eterna romaria é essa tal felicidade, só que felicidade é algo que se assemelha ao horizonte pois que é utopia, nunca chegaremos lá...
Nova Velha Lapa de meus amores, dissabores de todas as cores. De azulejos e de cacos, de asfalto e assoalhos. Do casario e do desvario coletivo, da arte nua e crua e da memória do meu povo e do meu lugar.
 
Circo Voador...
 
Circo Voador Palco...
 
Transito entre os velhos caminhos. Os mesmos que levam ao mar, agora tão afastado pelas mãos dos homens. Mar que foi golpeado por destroços até sufocar e recuar.
Onde as muralhas de pedra, donde se viam as ondas? Restam ainda poucos retalhos delas, testemunhas do nosso pobre poder.
 
Fundição Progresso....
 
Lapa de lagoas ditas insalubres e salobras por natureza, que esparramadas intercalavam terra e água em névoas salinas.
O mosaico de cores está espalhado em cacos de lembranças - fotos e quadros que nos mostram como um espelho, a imagem de remotos dias, de perdidos caminhos em direção ao mar e aos morros.
Nova Lapa que surge de escombros e sombras, cantando e dançando sob os Arcos, saudando a vida teimosa das crianças sujas, crias de suas sarjetas ou pranteando a deuses a seus boêmios santificados, dos quais ainda ouvimos acordes dispersos entre uma e outra esquinas.
Nova Lapa de carros imponentes a circular, despejando de seus ricos interiores os que viajam anos luz de distância entre dois túneis, entre algumas avenidas, entre pórticos e portais, portões e umbrais.
 
  Nova Lapa dos alaridos e troadas de potentes aparelhos sonoros que enviam notícias ao vento em modernos sons de tambores.
Nova Lapa de trambiques, alambiques, pileques e dos moleques de sempre. Das casas de arrumação, dos pardieiros multicores, dos porões mofados e dos sobrados encarquilhados. Dos bares, dos "podrões" enfumaçados, sabe-se lá recheados com as mil e uma bactérias existentes, para os bêbados estômagos resistentes.
 
 
Rua Joaquim Silva....   Uma pintura de Lapa!
 

Nova Lapa de mortes à espreita em sombras de velhas vinditas e de atuais pendengas. De tráfico, valentias e arruaças sem fim.

Dos forrós, choros, sambas, afros, capoeiras e tribos nascidas da argila morna e macia dessa imensa orgia citadina.

Fotos:
www.artpleinairblogspot.com
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www.literaturariodejaneiro.blogspot.com/2007/04
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